Fur-Free: o movimento que toma de assalto a London Fashion Week

Para alguns, as peles de animal são sinónimo de glamour de eras passadas. Para outros, é a materialização de mortes brutais em prol da vaidade. Apesar do debate, é indubitável que a indústria da moda tenha apressado o passo na busca por um futuro mais ético.

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Por: Leonor Carmo

No evento que decorrerá ente 14 e 18 de setembro na capital inglesa, o verdadeiro é trocado pelo sintético, através de uma aposta mais sustentável e consciente. Num fenómeno inédito, as peças em pelo animal (provavelmente) não irão constar na panóplia de desfiles da Fashion Weekde Londres.

O evento espelha uma tendência que temos visto ao longo dos anos, isto é, cada vez mais marcas optarem por materiais alternativos ao pelo animal. Num inquérito realizado pelo British Fashion Council, o apreço pelo movimento fur-free é notório. Constatou-se que a maioria dos designers envolvidos no evento se mostrava adepta da eliminação de uso de pelo animal na semana da moda. A mesma organização comentou os resultados da investigação, dizendo que estes”refletem uma mudança cultural baseada em ideais e escolhas” por parte de designers, marcas e consumidores.

Contudo, apesar das conclusões animadoras, o pelo animal não foi banido do evento. Ou seja, ainda podemos ser surpreendidos por algumas peças de pelo verdadeiro.

Burberry anuncia novas medidas sustentáveis

O acontecimento segue a notícia de que a marca de luxo Burberry vai deixar de usar peles nos seus produtos, com efeito imediato. E, para além de se comprometer a retirar gradualmente as peças em pelo já existentes nas suas coleções, irá deixar de queimar todos os produtos que não foram vendidos, prática comum das empresas de moda que desejam evitar que os produtos sejam vendidos a baixo preço. Sabe-se que, só no ano de 2017, a Burberry destruiu roupas e perfumes no valor de mais de 31 milhões de euros.

Apesar da decisão ser, claramente, uma resposta às críticas nas redes sociais e à pressão de ativistas pelos direitos dos animais, a marca acredita que estas medidas preservarão a integridade da mesma e que serão uma mais-valia na luta contra o desperdício causado pela indústria da moda. O CEO da Burberry, Marco Gobetti, afirma que a empresa se compromete com a aplicação do seu talento criativo para encontrar soluções positivas nos campos da sustentabilidade e ética. Acrescenta ainda:

“Luxo moderno significa ser social e ambientalmente responsável. (…) Essa crença é fundamental para nós na Burberry e fundamental para o nosso sucesso a longo prazo.”

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A coleção da Burberry para o desfile de setembro de 2017. Burberry / Divulgação

Durante muitos anos, o uso de pelo animal por parte da Burberry cingiu-se a coelhos, raposas, martas e guaxinins asiáticos. Agora, todos estes animais podem dar um suspiro de alívio por já não constarem na lista de ”ingredientes” da roupa e acessórios da marca. No entanto, é incerto se podemos tratar este acontecimento como uma completa vitória sobre o uso de peles, visto que continuarão a ser usados nas coleções couro e shearling (a pele de ovelha ou carneiro).

Wendy Higgins, da Humane Society International UK, comentou que a organização contactou a empresa há quase uma década com um pedido para que esta abandonasse a venda de peles.

“A maioria dos consumidores britânicos não quer ter nada a ver com a crueldade das peles e, portanto, esta é a decisão certa por parte da marca essencialmente britânica. E enquanto a Fashion Week começa em Nova Iorque, a postura compassiva da Burberry não poderia ter chegado em melhor altura, enviando uma mensagem forte para casas como a Prada que, ainda usando peles, parecem mais isoladas e desatualizadas a cada dia que passa.”

As peles têm lugar na moda de hoje?

A casa britânica junta-se, então, a outras marcas fur-free, como Stella McCartney, Calvin Klein, Hugo Boss, Giorgio Armani, Net-a-Porter, Michael Kors e Vivienne Westwood. Nomes como Versace, Tom Ford e Maison Margiela também se comprometeram com um futuro onde as peles são coisa do passado. Até mesmo a Gucci, que começou como produtora de peças de couro feitas artesanalmente pela família, deixou de usar peles nas suas coleções, já no ano passado. No universo online, a Asos passou a proibir o uso de penas, pele, seda, caxemira e mohair.

Para além do recente anúncio da marca britânica, a escolha de obliterar as peles da London Fashion Week parece acompanhar, igualmente, o número crescente de manifestantes contra o uso de peles presentes no evento. Estes passaram de 25, em 2016, para mais de 250, em setembro do ano passado. Já na edição de fevereiro deste ano, o evento não deixou de ser alvo de críticas por parte de ativistas em defesa dos direitos dos animais. Durante o desfile de Mary Katrantzou, onde desfilava uma modelo num casaco de pelo sintético, uma manifestante invadiu a passerelle, gritando ”Devias ter vergonha, London Fashion Week!”.

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Uma modelo num casaco de pelo sintético desfila para a coleção Outono/Inverno 2018 de Mary Katrantzou, na London Fashion Week, em fevereiro deste ano.

E as pressões não terminam aqui. Esta semana, o grupo ativista PETA UK publicou uma carta aberta da cantora Paloma Faith à presidente do British Fashion Council (BFC), Stephanie Phair, pedindo-lhe que, em nome da organização, introduzisse uma política fur-free. A cantora, referindo-se à proibição da criação de peles implementada no Reino Unido em 2003, escreve:

“O BFC não deveria promover um material cuja produção é considerada tão cruel, que é ilegal no Reino Unido.”

Em resposta, a CEO do BFC, Caroline Rush, afirma que a organização acredita nos direitos de pessoas e animais e que encoraja os designers a fazer escolhas éticas. No entanto, o BFC não chegou a banir estes materiais do evento, já que “não define ou controla o processo criativo dos designers”. Tal como a importação de peles, ”o uso de peles não é ilegal no Reino Unido e a utilização deste material deve ser uma escolha tanto do designer como do consumidor”, declara Rush.

Alternativas ao pelo animal: Vegan-friendly, mas serão amigas do ambiente?

As apostas da Burberry e da London Fashion Week são, sem dúvida, mais sustentáveis e éticas. No entanto, ainda existem debates sobre o impacto ambiental das alternativas sintéticas ao pelo animal. Muitas vezes de baixa qualidade, abrigam as suas próprias desvantagens. O pelo sintético, não só frequentemente constituído por plásticos não-biodegradáveis, mas também com processos de fabricação que envolvem produtos químicos tóxicos, torna-se um grande poluidor de rios, mares e locais de aterro. Esta realidade mostra, assim, que os produtos vegan-friendly nem sempre estão isentos de prejuízo.

Casacos de pelo sintético. Foto: Charisse Kenion/ Unsplash

Indústria de peles em declínio

Com todas as pressões e constrangimentos a que se encontra sujeita, é evidente o perigo em que a indústria de peles se encontra. O Reino Unido é apenas um dos países empenhados num futuro fur-free. Na Alemanha, Áustria e Croácia, as quintas de criação de peles também já deram o seu último suspiro. A Noruega, que já foi a maior produtora mundial de peles de raposa, também se comprometeu  a eliminar todas as quintas de criação de peles até 2025. Enquanto isso, a Suíça e o Japão já encerraram todas as quintas em operação. Assim, é caso para nos questionarmos: será que há lugar para as peles na moda de hoje?

Com cada vez mais marcas a apostar em estratégias de moda responsável, as últimas novidades do mundo da moda mostram-nos que já não bastam apenas peças bonitas para satisfazer as massas. Valores morais e consciência política parecem ser, realmente, a grande tendência que irá perdurar.

Fonte: Espalha Factos